Cavalheiro e Cavaleiro
Prendedor de Colarinho
Deveres para com todos
Canecas de barbear
Quatro dicas antigas e simples para um barbear perfeito!
Retrospectiva Cavalheirismo. As 10 charges mais curtidas na página do Cavalheirismo em 2014
Fazem-se visitas!

Os canivetes de meu avô

Caros cavalheiros, queria muito compartilhar o texto abaixo. Eu o salvei da internet há muito tempo, porém fiz pesquisas recentemente e não consegui mais achá-lo. Por isso, quero postá-lo, apesar de não ter um link para colocar como referência.
O autor Laércio Gazinhato parece ser hoje um dos maiores colecionadores e entendedores no ramo da cutelaria. Acho que muitos cavalheiros podem ter uma história parecida, ou não, mas o importante é sempre termos um bom canivete como amigo.

Os canivetes de meu avô
O início de uma paixão de mais de 30 anos.
Laércio Gazinhato

           Corria 1962 e lá estava eu com 11 anos preparando fardos de jornais velhos, garrafas de vidro e derretendo chumbo de lacres… e tudo isto – para aborrecimento de minha mãe – na ampla garagem de nossa casa nova no bairro paulistano do Ipiranga…
Naquela época, esta era a única forma de um pré-adolescente como eu ganhar honestamente algum dinheiro. Eu passava a semana toda recolhendo estas coisas na vizinhança e aguardava com impaciência a manhã de sábado quando passava uma carrocinha puxada por cavalos e o homem gritando: “Metalero, garrafero…Jornal velho…”. Puxa, eram mesmo uns bons trocados o que eu ganhava!
         Foi por esses dias que ganhei meu primeiro canivete, presente inesquecível de meu avô materno, José Rodriguez Cardenas, que morava com minha avó numa casinha nos fundos de nossa nova e ampla residência. Era um canivete já de 2ª mão, bastante usado, mas que – entre muitas outras coisas – ajudava-me a cortar barbante para os fardos de jornal.
José Rodriguez Cardenas (25/09/1893 – 03/02/1978) em foto de 1961, poucos meses antes de presentear o autor com seu primeiro canivete.
          Meu avô José era espanhol de Málaga, havia vindo para o Brasil em 1926, já tinha 69 anos, era aposentado e passava a maioria dos dias cuidando de uma grande horta que ele havia feito no quintal, contando-me deliciosas histórias de sua juventude na Espanha do princípio do século 20 e ensinando-me preceitos de vida que até hoje utilizo. Enquanto na Espanha, meu avô José vivera de fornecer frutas ao Marrocos e aqui no Brasil havia trabalhado durante muitos anos na Tecelagem Carone, na cidade de São Paulo, por onde se aposentou em 1953.
            Naquela época meu pai trabalhava bastante e não tinha muito tempo para eu e minha irmã (como ele mesmo dizia: “quando eu saio, vocês estão dormindo…e quando eu chego, também!”). Um ano antes, meu avô paterno, João, havia falecido e a proximidade diária contribuiu para tornar-me muito próximo de meu avô José. Éramos mesmo bons amigos e como eram bons e simples aqueles
meus distantes dias: eu estudava de manhã, à tarde recolhia coisas velhas e as organizava, ouvia suas histórias (muitas vezes com outros garotos amigos) e…esperava os sábados!
A GENTE NUNCA ESQUECE…
       Foi justamente numa daquelas tardes de 1962, depois de muitas outras em que eu lhe pedia emprestado o canivete para cortar barbante, que ele presenteou-me com o seu próprio. Que honra! E como eu fiquei feliz com o presente, apesar de já ser um canivete bastante usado…mas, isto não importava: eu agora era gente, tinha – como ele – meu próprio canivete!
Naquela oportunidade, meu avô José também exibiu-me seu canivete novo: um lindo “pica-fumo” com cabo de chifre bovino, comprado – às escondidas de minha avó Antônia, claro – na “cidade” (que era como, naquela época, todos se referiam ao centro de São Paulo, numa deliciosa reminiscência de tempos muito mais antigos). E, sim, meu avô preparava seus cigarrinhos “de palha”, também numa antiga e deliciosa tradição que se perdeu.

  Esta sequência mostra o incomum sistema de abertura do primeiro canivete do autor. Atualmente, sua lâmina tem 2 polegadas de comprimento, mas quando novo era de 2 ¼”. Sua estrutura é toda em latão niquelado. Embora não tenha nenhuma marca de fabricante, o autor crê que seja de origem norte-americana e tenha sido manufaturado na década de 1950.

Aprendi muitas coisas com esse meu primeiro canivete que – muito tempo depois – descobri ser um modelo completamente fora do habitual: “…nunca corte nada com o fio em direção ao corpo”; “depois de usa-lo, sempre limpe-o”; “vamos afiá-lo juntos…”, etc…bom, afiar naquela época era (hoje sei que muito erroneamente!) passa-lo em ângulo na soleira de mármore da porta da cozinha…Mas, tudo isto valeu, e muito!
         
      Veio o verão, as férias escolares e…as “pipas” ou “papagaios” e foi grande o número de varetas de bambu e de finas folhas de papel (“de seda”, como se dizia e ainda se diz) que eu e meu avô cortamos e preparamos com nossos canivetes. No mês de junho, com as festas de São João, meu pai se juntava a nós quase todas as noites nestas “tarefas cortantes”, mas agora o tema eram os balões, no que ele era mestre (e, como todo mestre, também só usava sua própria lâmina, que era a de uma pequena e linda faca de caça alemã, com empunhadura de chifre, zelosamente mantida afiada e guardada com seus apetrechos de caça e pesca…mas esta é outra história, que fica para uma outra vez!).
         Usei este meu primeiro canivete diária e seguramente por uns 3 ou 4 anos, mas veio a adolescência, as festinhas, as meninas e…um emprego de verdade. Meus pais proibiram-me de levá-lo ao trabalho e eu também já não fazia tantas “pipas”, mas meu avô continuava a usar muito o dele.
Lembro-me de uma história muito engraçada, que se passou num sábado. Este era o dia em que , pela manhã, eu engraxava todos os sapatos da casa e naquela tarde a família tinha que ir a um casamento, meu avô incluido, mas – por algum motivo que não me recordo – sob protesto (lembrem-se: ele era espanhol e, por isso, naturalmente teimoso). Minha avó e minha mãe haviam saído de manhã e comprado um par de sapatos novos para ele. Ele experimentou os sapatos e serviam sim, mas acontece que o couro ainda estava duro e ele sofria de um teimoso e dolorido calo no dedo menor do pé direito. A idéia que tivemos foi passar um azeite naquela região do couro e deixar o sapato no sol até a hora de sair para o casamento. Lá pelas 16:00 horas, todos prontos para sair, lá vai meu avô calçar os sapatos novos…Meus olhos ainda guardam a cena: de terno e gravata, sentado na soleira da lavanderia, ele os calça, se levanta, tenta andar e vacila…ainda o incomodava; ele não se faz de rogado, senta-se novamente, tira o sapato, mete a mão no bolso, abre o canivete e corta a porção de couro que ficava justamente sobre o dolorido dedinho do pé direito! Meu pessoal só foi perceber isto no decorrer da festa de casamento e minha mãe e a avó pediam insistentemente para ele não cruzar aquela perna. Ele, é claro, nem ligava e em diversas outras ocasiões o vi
com aquele par de sapatos em cujo pé direito havia um buraco circular de uns 2 cm de diâmetro!

Este é o “pica-fumo” que foi do avô do autor,
 claramente inspirado nos famosos Joseph Rodgers
 do mesmo tipo. Sua lâmina apresenta o timbre
 “COTNS” e é provável que tenha
sido produzido no Interior de São Paulo
no início da década de 1960.
Sua lâmina tem 2 ½ polegadas
de comprimento
.

        Bom, meu avô José cortava mesmo tudo o que podia com seu “pica-fumo”, desde os caules para seus enxertos em plantas, as frutas que ele habitualmente comia após as refeições, o sempre presente cigarro “de palha”, os envelopes de sua correspondência, o barbante dos pacotes que alguém trazia, as grossas unhas de seus pés e até… a parte dura de seus calos!
          

O ÚLTIMO CANIVETE

        Chegam os anos 70 e eu já estou na casa dos vinte anos, bem empregado , namorando muito e aquelas coisas todas próprias da idade. Meu avô José está mais velho, com a saúde debilitada, mas ainda é sábio e profundo nas coisas que me diz. Eu, é claro, converso menos com ele, mas ainda ouço muito seus conselhos… Naquela época eu estava muito envolvido com meu primeiro carro esporte e as principais conversas eram as namoradas, e as pescarias e caçadas que eu e meu pai fazíamos na Fazenda Mombasa, em Mogi-Guaçu, Interior de São Paulo. Meu avô José, coitado, nunca pôde participar delas, pois quando meu pai conseguiu essa oportunidade ele já estava com a saúde bastante abalada…

Observe as lâminas com as porções
de fio deformadas, produto de muitas
afiações descuidadas.

         No início da década de 1970, José Cedeño, um espanhol amigo de imigração de meu avô, estava para viajar a turismo para a Espanha e veio nos visitar, tendo perguntado a meus avós se queriam algo de lá. Uma semana depois ele retornou e deram-lhe cartas e fotos para levar a amigos e parentes espanhóis.
Quando um mês e pouco depois voltou da Espanha, Cedeño veio a nossa casa e trouxe alguns presentes, entre eles um lindo canivete utilitário alemão, de múltiplas lâminas e talas de empunhadura em chifre de veado para meu avô. No momento seguinte em que meu avô o viu, “aposentou” seu velho “pica-fumo”, usado diariamente por mais de 15 anos.
        Em 1974 meu avô José teve um ataque de trombose que lhe paralisou o lado esquerdo do corpo, mas por sorte ele era destro e pode – ainda que muito menos – continuar a usar seu novo canivete utilitário: lembro-me dele bastante debilitado, sentado numa cadeira ao sol, descascando maçãs…
         A doença de meu avô piorou e ele foi perdendo os movimentos do outro lado do corpo e a lucidez. A partir de 1976 ficou entrevado numa cama, tornou-se quase que completamente apático e apenas muito raramente tinha momentos de lucidez. Minha mãe e minha avó gastavam grande parte de seu tempo cuidando dele. Por 2 anos essa agonia continuou, mas finalmente em 1978, com 85 anos, meu avô José descansou de seu sofrimento…

O último canivete do avô do autor e hoje seu preferido.
É alemão, da excelente marca Carl Hoppe
(desaparecida desde finais da década de 1980),
de Solingen, e todas as suas lâminas são em aço inoxidável.
A lâmina principal tem2 ¾ polegadas de comprimento.

       
seus dois últimos canivetes. Durante alguns anos, eles e o meu primeiro canivete ficaram guardados no porta-jóias que abrigava minhas abotoaduras. Em 1986, quando deixei de ser empregado e já não tinha mais que usar ternos, passei a portar diariamente o utilitário alemão, tendo para ele adquirido numa charutaria uma bolsinha de couro feita no Interior de São Paulo. De lá para cá é muito raro um dia em que eu esteja sem ele. Numa de minhas viagens aos EUA no início da década de 1990, para ele adquiri uma bolsinha de couro especial, inteiramente artesanal, executada pela famosa selaria norte-americana C.F. Winchester, de El Paso, Texas, fundada na época do Velho Oeste.
        Quando em 1997 meu filho completou 12 anos dei-lhe um canivete utilitário de presente e para ele iniciei uma pequena coleção a partir de alguns exemplares que eu já tinha reunido. Hoje meu filho porta diariamente um Leatherman e, embora eu atualmente tenha mais de 40 bons canivetes para escolher e usar, não o faço, pois nenhum me seduz tanto quanto o antigo utilitário alemão herdado de meu avô. Usando-o é como se eu ainda estivesse com esse bom homem que tantas coisas me ensinou ao lado…Do Céu, continue olhando por nós, vô!

4 Comentários para: “Os canivetes de meu avô

  1. Eu tenho uns 50,dei de presente ao meu filho Lucas,que completou 6 anos,um Corneta Cabo em osso foi ele que que escolheu,olha que tenho uns Joseph Rodgers,mas ele escolheu um cornetinha,so vai pegar quando tiver mais idade,quanto isso ,ajuda a limpar uma vez por mês!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*